Dentro da Red Bull Powertrains: Como equipe e a Ford construíram o motor da F1
Equipe austríaca competirá em 2026 com as próprias unidades de potência pela primeira vez desde sua estreia na categoria, em 2005
A Red Bull competirá com a própria unidade de potência de Fórmula 1 pela primeira vez nesta temporada, em uma parceria com a Ford. Mas como o projeto foi desenvolvido nos últimos quatro anos e qual é o seu estado atual?
Na quinta-feira (15), a colaboração entre Red Bull e Ford foi oficialmente lançada em um evento em Detroit – cidade natal da Ford – embora tenha sido em grande parte simbólico. Nos bastidores, o trabalho já vinha sendo realizado há quatro anos no Red Bull Campus em Milton Keynes, na Inglaterra.
Laurent Mekies descreveu como “insano” para uma empresa de bebidas energéticas assumir o desafio de construir motores de F1, embora, ao analisar mais de perto, a ideia não seja tão absurda quanto parece. Na verdade, ela já havia chegado à mesa do fundador da marca, Dietrich Mateschitz, há duas décadas.
“Ainda me lembro que, quando eu estava na equipe, eu os incentivava a comprar a Cosworth e construir seus próprios motores,” refletiu David Coulthard sobre a estreia da Red Bull na F1. “Fomos clientes da Ford primeiro, depois da Ferrari, depois da Renault, e ser cliente é ruim. Eu já tinha passado por isso na Renault e na McLaren-Mercedes, e parecia que sempre seríamos prejudicados por sermos uma equipe cliente".
“Quando a equipe comprou a Toro Rosso, eu pensei ‘espera aí, já é difícil o bastante vencer com uma equipe, como vamos vencer com duas?’ Então, pessoalmente, isso é algo que eu dizia há 20 anos, deveríamos ter nossos próprios motores", brincou.
“Se você quer controlar seu próprio destino, não depende de mais ninguém. Agora a equipe está 100% no controle do seu próprio destino. Vai ser desafiador, claro que vai, e pode não funcionar no começo. Não funcionou no começo como equipe de F1, mas acabou funcionando, e a Red Bull tem o compromisso, os recursos e as pessoas para fazer isso funcionar a longo prazo".
Laurent Mekies, Red Bull Racing Team Principal, Jim Farley, Ford CEO
Photo by: Red Bull Content Pool
O cerne da teoria de Coulthard é exatamente o que Christian Horner – uma das forças motrizes por trás do projeto – enfatizou: reunir tudo sob um mesmo teto trará benefícios a longo prazo, especialmente com a integração da unidade de potência ao chassi. Além disso, após um final frustrante da relação com a Renault e a decisão repentina da Honda de deixar formalmente a F1 no fim de 2021, a Red Bull não queria depender de outros novamente.
Se manter sozinho pode parecer atraente, mas na prática envolveu muito mais do que simplesmente desenvolver um motor baseado nas regras de 2026. O primeiro passo para a Red Bull foi construir uma instalação em Milton Keynes e, paralelamente, encontrar pessoas capacitadas.
O trabalho no Edifício Jochen Rindt – nome oficial do galpão de motores – começou no início de 2022. A instalação fica do outro lado da rua do MK7, espaço de eventos da sede britânica. Ao entrar, os visitantes caminham pelo ‘Brodie’s Boulevard’, um corredor nomeado em homenagem a Steve Brodie – ex-funcionário da Mercedes que foi um dos primeiros a fazer a mudança em agosto de 2021 e desempenhou papel importante na montagem da instalação.
Nesse corredor também está um motor de combustão interna: o V6 do primeiro acionamento em agosto de 2022, momento que Mateschitz ainda pôde testemunhar pouco antes de seu falecimento.
Ao mesmo tempo em que construía a instalação, a Red Bull precisava encontrar um parceiro – tanto para ajudar a financiar o projeto quanto para fornecer conehcimento adicional.
A Porsche era o plano A, mas após o colapso das negociações, o diretor da Ford Performance, Mark Rushbrook, não hesitou e, segundo ele mesmo admite, simplesmente enviou um e-mail para Horner perguntando: “Ei, a Ford está interessada. Gostaria de conversar?” Pouco depois desse e-mail, reuniões com Bill Ford e Jim Farley foram organizadas, e as assinaturas foram feitas.
De cinco pioneiros a setecentos funcionários
Naquela época, o diretor da Red Bull Powertrains, Ben Hodgkinson, já vinha planejando o projeto há quase um ano. O britânico foi anunciado como líder dos ambiciosos planos da Red Bull em abril de 2021, vindo da Mercedes High Performance Powertrains – como muitos outros, com Horner estimando que até 220 pessoas fizeram a mudança, embora seus cálculos possam ser um pouco otimistas.
Quase cinco anos depois, Hodgkinson brincou: “Vamos direto ao ponto, provavelmente consegui esse emprego por causa do sucesso que outra equipe teve!” ele diz, referindo-se ao domínio da Mercedes desde 2014 e seu papel nisso.
“Quando me apresentaram a oportunidade, adorei a ideia de ser uma folha em branco, não apenas a unidade de potência, mas a empresa inteira. Poderíamos construir sob medida para o que sabíamos que as regras seriam. Foi uma oportunidade muito legal, e eu precisava tentar transformar isso em uma vantagem".
Max Verstappen, Laurent Mekies, Ben Hodgkinson, Red Bull Powertrains-Ford tour
Photo by: Red Bull Racing
Mas havia uma desvantagem significativa: “Começar do zero é uma frase curta, mas a gravidade do que isso significava demorou para realmente cair a ficha. Tentar encontrar o que virou 700 pessoas em pouco tempo tem sido realmente desafiador. A empresa começou com apenas cinco pessoas em um pequeno escritório antes mesmo das fábricas serem construídas,” explicou Hodgkinson quando questionado pelo Motorsport.com.
A partir daí, as pessoas foram rapidamente reunidas da própria Red Bull, Honda, Mercedes e outras empresas como a AVL. Para Hodgkinson, o trabalho diário parecia uma startup.
“Todo mês, 20 pessoas a mais começavam, então seus papéis e responsabilidades mudavam de semana para semana. Você tinha uma pessoa que projetava peças, encomendava peças e montava peças, e na semana seguinte chegava outro cara para montar, então ele parava de fazer isso. Tem sido uma fera em constante evolução".
Rushbrook também apontou outro fator complicador: reunir pessoas de diferentes origens e fazê-las trabalhar da forma mais eficiente possível. Em fabricantes estabelecidos, a estrutura corporativa e a cultura já estavam definidas, mas na Red Bull isso teve que ser construído.
“Enquanto isso, temos que tentar nos adaptar à cultura Red Bull, e temos que tentar extrair tudo dos novos contratados para garantir que estamos aproveitando o melhor de todos esses mundos. Mas, na verdade, acho que isso criou uma verdadeira diversidade cognitiva no grupo, o que gerou uma taxa de mudança muito alta".
“Outra coisa que, se fosse deliberada, seria genial, mas foi um pouco um acidente: se você cria um projeto realmente ousado e audacioso, ele só atrai pessoas ousadas e audaciosas. Todas as pessoas que são um pouco cautelosas e acham que isso soa arriscado, ficam onde estão. O tipo de pessoas que entram se encaixa na cultura Red Bull como uma luva, e isso é ótimo para a taxa de inovação. Foram quatro anos emocionantes, mas também intensos".
Red Bull Ford Powertrains
Photo by: Red Bull Content Pool
Um novato pode ser competitivo desde o início?
No lado técnico, a Red Bull – como mostrou o primeiro acionamento em agosto de 2022 – começou pelo motor de combustão interna. A oficina de montagem foi dividida em duas partes: uma para o V6, outra para um cilindro único.
Essa configuração está intimamente ligada ao tempo de desenvolvimento e ao limite de custos. Testar novas ideias em um cilindro único é mais rápido e barato do que em um V6 completo, o que significa que as mudanças só eram testadas no V6 completo depois de funcionarem no cilindro único.
À primeira vista, a abordagem geral difere um pouco da adotada pela Honda, com Koji Watanabe explicando que o fabricante japonês inicialmente focou mais nos componentes elétricos. Ambas as abordagens fazem sentido dado os diferentes históricos, já que a Red Bull teve que construir sua instalação de motores do zero e começar pelo motor de combustão interna foi a escolha óbvia.
A grande questão, claro, é quão competitiva a Red Bull pode ser após esses quatro anos de desenvolvimento. É uma pergunta que Hodgkinson também não pode responder, embora use uma metáfora apropriada.
“Já descrevi isso para alguns dos meus colegas, é como uma corrida de 400 metros. Uso 400m porque uma corrida de 400m é basicamente uma corrida de velocidade, então parece uma corrida rápida. Mas você está fazendo isso em um estádio sozinho, sem torcida, e em um país diferente de todos os seus concorrentes".
Com essa analogia, Hodgkinson destaca que a Red Bull Powertrains não tem ideia do que os outros fabricantes estão fazendo. “Tudo que sei é que estamos correndo o mais rápido que podemos.”
Nesse sentido, Hodgkinson acredita que a Red Bull Powertrains está na melhor posição possível para sua primeira temporada.
“Obviamente, tenho muita experiência em projetar motores de F1. Estou nisso desde a era dos V10, então sei como é uma boa empresa. Tenho a oportunidade única aqui de tentar moldar como deveria ser o fabricante perfeito de unidades de potência. A Red Bull tem sido muito receptiva em relação às instalações que temos, então estou bastante confiante nas nossas instalações".
“Acho que as pessoas que temos são incríveis também, então acho que temos todos os ingredientes. Se isso vai se transformar em uma refeição Michelin, teremos que ver. Estou confiante de que construímos a empresa certa e temos as pessoas certas, mas acho que confiança é algo que alguém prestes a perder teria,” brincou.
Na realidade, até mesmo pessoas dentro do projeto Red Bull não sabem como ele vai se sair contra concorrentes com décadas de experiência na F1.
Mekies chamou de “ingênuo” pensar que a Red Bull pode aparecer com a melhor unidade de potência, embora Hodgkinson enfatize que tudo o que era possível foi feito nos últimos quatro anos. Está longe de ser uma garantia de sucesso, mas pelo menos está realizando o segundo sonho que Mateschitz tinha.
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